quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Moacir Jupiassu ficou encantado

Para João Guimarães Rosa, "a gente não morre, fica encantada"... e foi assim que Moacir Jupisassu nos deixou abruptamente ontem.

Autor e amigo da Nova Alexandria, com seu bom humor inteligente e crítico, ele esteve presente desde o nascimento da Editora. Criador dos prêmios Líbero Badaró e Cláudio Abramo, ficamos acostumados com sua presença sempre quente e de altíssimo astral. Nos descuidamos e ele, sorrateiramente, se encantou - ou, como diz outro autor ilustre nosso, Rolando Boldrim: partiu antes do combinado.

Porém, não pense ele que ficou livre de nós: seus textos, seus livros, sua graça, seu jeito de encarar a vida impregnou-se em nós e, até depois de todos ficarmos encantados, seu encanto permanecerá, para que os que vierem depois de nós colham nas mãos em concha e bebam a água fresca de suas mensagens cheias riso sadio, de humanidade e amor pela vida.

                                                                 A equipe da Nova Alexandria.



segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Literatura de cordel no Porto Seguro

Sebastião Marinho e João Gomes de Sá na biblioteca do colégio
Porto Seguro - Panambi (Zona Sul de São Paulo).
Por Jeosafá.

O poeta João Gomes de Sá e o repentista Sebastião Marinho estiveram no último sábado, 24 de outubro, na biblioteca do colégio Porto Seguro - Panambi, Zona Sul de São Paulo.

O colégio é uma importante instituição privada de educação, que tem no cordel um interesse particular. A presença dos dois artistas é mais um capítulo do esforço da Editora Nova Alexandria em fazer chegar a nossos estudantes o que há de melhor e mais atual na cultura popular brasileira.


Pelos versos da literatura de cordel passam a história, a geografia, as identidades, o humor e a versatilidade do Brasil, que se inventa e reinventa continuamente, a cada imigrante que por aqui chega com seus sonhos, expectativas e cultura.
De maneira lúdica e inteligente, o cordel pinta quadros os mais variados da gente que escolheu o Brasil para sua casa definitiva. Porém, também retrata as experiências de outros povos, por meio da adaptação de clássicos da literatura universal, com é o caso da coleção Clássicos em Cordel.












sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Direitos Civis nos EUA


A escravidão não é criação da era moderna. A Grécia antiga, inventora da democracia, empregou o trabalho forçado como parte de sua estrutura social e produtiva – estando os escravos, como se sabe, excluídos dos direitos de participação nas decisões públicas.
Por Jeosafá.

Aula comunitária no colégio Rio Branco Granja Viana e Higienópolis

A china praticou a escravidão em larga escala, e a rigor, ela só foi extinta com a revolução comunista de Mao Tse Tung, quando, deposto o último imperador, os eunucos foram libertados, e quando seus escrotos secos, guardados em caixinhas, lhes foram devolvidos pelos revolucionários, como símbolo de que os vínculos com seu senhor estava definitivamente extinto (no filme O último imperador, de Bernardo Bertolucci, essa cena é particularmente perturbadora).

Por toda a América pré-colombiana há registros de escravidão: maias fizeram escravos, aztecas fizeram escravos, incas fizeram escravos. No Brasil pré-Cabral, era comum o sequestro de mulheres após guerras entre tribos. A função da mulher sequestrada era a de, incorporada à força, tornar-se esposa de algum jovem da tribo vencedora.   Se a esse casamento compulsório com o filho ou mesmo o próprio matador de seus pais – para fins de garantir descendentes saudáveis a partir de um estoque genético diverso –  não chamamos de escravidão sexual, é por zelo para com uma prática indígena que, praticada hoje nas sociedades ocidentais, recebe, sim, a classificação de escravidão sexual – condenada e punida por leis nacionais e internacionais.

Colored: Negros, índios e mexicanos no fundo do ônibus.
Assim, é um erro grotesco considerar que a discriminação racial em razão da escravidão ou por outros motivos recai somente sobre os negros. Nos dias de hoje, palestinos são alvo de racismo em Israel, tanto quanto judeus foram vítimas do ódio nazista na Alemanha hitlerista. Na Espanha de Franco, ciganos foram perseguidos com crueldade, tanto quanto chineses foram massacrados durante a 2ª. Guerra por japoneses imperiais, estes embalados pelo delírio de superioridade racial.

O racismo tem-se revelado ao longo dos séculos e milênios como uma estratégia violenta de grupos sociais para submeter, explorar e expropriar outros grupos. Riquezas imensas produzidas pelo povo judeu foram saqueadas por nazistas e fascistas e o próprio indivíduo semita teve seu corpo exaurido até a última gota de energia nos campos de concentração do III Reich. O objetivo principal do Japão ao invadir a China não foi instaurar uma “civilização mais avançada”, mas estabelecer um império político no extremo da Ásia para explorar as imensas riquezas continentais dessa região.

Aula comunitária sobre os Direitos Civis nos EUA para estudantes do colégio Rio Branco - Granja Viana (17/10/15).
Assim, o argumento de superioridade racial nunca passa de um álibi para, criando-se em um grupo de força uma coesão interna a partir de um a farsa, explorar e extorquir – o que não se faz sem muita violência e, por oposição, muita resistência.

Aula comunitária sobre os Direitos Civis nos EUA para estudantes do colégio Rio Branco - Higienópolis (22/10/15).
Servimos apenas brancos .
Nunca hispânicos, nem mexicanos.
Porém, não há historiador que não admita ter sido a escravidão negra um dos pilares do capitalismo emergente das Grande Navegações, tendo alimentado, ela própria, a escravidão, grande parte das rotas marítimas atlânticas entre os séculos XVI e XIX, no chamado comércio  triangular (uma metrópole europeia, um posto de compra de escravos na África ocidental e uma colônia na América).

É essa proeminência da exploração da mão de obra escrava negra oriunda da África que levará um dos maiores líderes da luta contra o racismo nos EUA, o jovem Malcolm X, a afirmar: “Não existe capitalismo sem racismo.”

Nos EUA, tanto quanto por toda parte em que foi empregada, a escravidão e a discriminação racial deixaram e deixam ainda marcas profundas, que sequer o amontoamento de séculos sobre séculos futuros apagará. Essas marcas, embora as mídias contemporâneas se apressem em  soterrar com avalanches de imagens dispersivas, estão por toda parte, e com o advento da internet, se espalham e se oferecem como fontes de reflexão para quem não deseja que semelhantes episódios de injustiça e vergonha se repitam.

Linchamentos legalizados no Sul dos EUA.
A luta pelos direitos civis nos EUA, por exemplo, não é recente. Com a vitória dos ianques sobre os confederados na Guerra Civil Americana (1861), também chamada Guerra da Secessão – pois o Sul tinha intenção de se separar do Norte –, o fim da escravidão foi imposto pelos vencedores aos vencidos na forma de lei federal que, em última instância, reconhecia igualdade entre brancos e negros, todos agora cidadãos livres de um mesmo país.

Porém, mergulhados no ressentimento da derrota e do ódio racial, bem como apoiados na grande independência administrativa que a Constituição dos EUA faculta aos estados, os do Sul passaram a confrontar a legislação federal por meio de aprovação de leis estaduais abertamente racistas. Esses esses dispositivos de submissão e  de segregação racial que tornaram os negros cidadãos de segunda classe em seu próprio país,  foram sendo aprovadas paulatinamente nos legislativos estaduais desde 1876, vigoraram até 1965, e ficaram conhecidas como leis Jim Krow – apelido que se deve ao personagem empregado por racistas para ridicularizar os negros nos EUA.

Jim Krow: caricatura humilhante que
emprestou o nome às leis racistas nos EUA.
Assim, a luta pela igualdade, vencida, ao menos no terreno legal (pois as explosões sociais de resistência de negros contra o racismo nos EUA, todos o sabem, são frequentes), em 1964 com a promulgação Lei dos Direitos Civis, durou noventa anos, período durante o qual todo tipo de violação aos direitos humanos foi cometido com amparo legal local no interior do país que se apresentava e se apresenta ao mundo como campeão da liberdade e dos direitos individuais.

As leis Jim Krow não apenas segregavam seres humanos pela cor da pele, proibindo que uns tomassem água no bebedouro de outros, ou se sentassem nos mesmos bancos de praças ou transporte coletivo, como algumas delas estimulavam o ódio racial e disciplinavam o linchamento de negros em praças públicas. Essas leis, a rigor, eram ainda piores do que as empregadas no período da escravidão, pois não tinham com alvo um ou outro escravo fujão ou escrava com a péssima mania de andar com o queixo erguido, mas todo e qualquer cidadão negro, toda e qualquer mulher ou criança negra, não necessitando de motivações quaisquer além do preconceito e do rancor.

Num dos períodos mais agudos de resistência ao racismo na década de 1960 e na luta pela aprovação da Lei dos Direitos Civis, surgiram os Freeddom RidersViajantes da Liberdade, caravana de jovens, estudantes, intelectuais e militantes negros e brancos que, unidos, decidiram confrontar a racismo legal imperante nos estados do Sul.

Freedom Riders: caravana da liberdade.
Essas caravanas de ônibus em que brancos e negros se sentavam lado a lado, cruzaram os estados sulinos, sendo recebidas com violência pela Ku Klux Klam – sempre apoiada pela polícia local e mesmo por agentes federais racistas, que transmitiam informações sobre o roteiro dos ônibus.

Obviamente, na vanguarda dessas caravanas da liberdade estavam os principais atores:  negros e negras dispostos a conquistarem definitivamente para si e para as gerações futuras de afrodescendentes norte-americanos o estatuto de cidadania plena. Porém eles encontraram em seus colegas brancos não racistas apoio decisivo – o que não impediu que os dois principais líderes negros dos EUA fossem assassinados:  Malcolm X em 1965 e Luther King em 1968.

Ônibus dos Freedom Rider incendiado .
A principal lição que essas caravanas deixaram a todos, não só aos norte-americanos, é a de que a luta pela igualdade, contra todos os tipos de discriminação e preconceitos não diz respeito apenas às vítimas diretas deles. Se eu sou branco, tenho um amigo negro e ele é humilhado, eu fui também. Se meu vizinho japonês é ofendido por causa de seus olhos puxados, os meus olhos também foram furados. Se uma piada nazista atinge um amigo judeu, eu fui jogado no forno junto com ele. Se uma manifestação de intolerância manda que meus amigos nordestinos voltem para sua terra depois de eles terem erguido a maioria dos grandes edifícios de São Paulo, eu fui convidado a partir da minha terra com eles.

Porém, a verdade é que eu não preciso ter um amigo negro, japonês, judeu, palestino, nordestino, sírio, gay, lésbica, transsexual, deficiente físico ou com limitação intelectual  para me posicionar em defesa da igualdade e da justiça, pelo simples motivo de que, em milhares de anos estudados pela história, não se conhece um único exemplo de que o ódio, a intolerância, a escravidão tenham construído nada. Onde prosperou a histeria coletiva, ali imperou os piores momentos da humanidade.

Agradecimentos às professoras Sandra (Granja Viana) e Laís (Higienópolis), à bibliotecária Valéria (Higienópolis) e aos estudantes do colégio Rio Branco, em que fui recebido com verdadeiro tapete vermelho e com imenso carinho, que espero ter retribuído com o que tenho aprendido em minhas pesquisas e aulas compartilhadas.

Leia também:



Jeosafá é escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria) e  em maio deste ano, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Quanto mais amor a gente tem, mais medo a gente sente.

Por André J. Gomes.


Quem tem amor tem medo. Eu tenho. Todo mundo tem. É assim mesmo, sempre foi. Uns têm mais. Outros, menos. Outros tantos, quase nada. Tem ainda os que morrem de pavor mas vivem negando. De qualquer jeito, toda criatura que sente amor, toda alma que já amou alguém na vida também já sentiu medo.
Você pode discordar. Pode ser daquela gente especial, pessoa dotada do superpoder de não ter medo de nada. Eu acredito, invejo. Adoraria ser assim, mas eu não sou, não. Eu sofro de amores e pavores.
Tenho aqui um monte de amor. Está ali, ao lado daquela montanha de medo. Viu? Tenho mesmo. Adoraria, ah, como eu queria acreditar que “quem tem amor de verdade não tem o que temer”. Eu já acho que quanto mais amor a gente tem, mais a gente teme.
Cada amor que faz de nós sua casa traz consigo um medo à espreita no porão. É preciso cuidar dele também. Mandar comida por debaixo da porta, abrir a janela e deixar entrar o sol. Vez em quando até soltá-lo à noite, deixá-lo errar por aí na solidão do escuro, enquanto as crianças dormem. Ele vai. O medo vai, mas sempre volta.
Quem tem amor, tem medo. Tal qual os pais e as mães cheios de amor e de medo das bactérias e dos canalhas, das doenças e da maldade que ameaçam suas crianças, os amantes também têm medo.
É medo de ver o amor acabar como acabam a água, o leite, a comida da despensa. Medo de não ter para onde ir buscar mais. Medo da sombra que paira no olhar da pessoa amada depois do riso, medo de não ser aceito, medo das conversas pontuadas de silêncios tensos.
Também tem o medo da insegurança que vira e mexe nos acomete e, por ironia suprema, nos afasta de quem amamos pelo simples pavor de perder.
Há quem sinta medo de deixar o medo travar-lhe as pernas e endurecer-lhe o coração. Medo de se permitir paralisar. E tem aqueles que sentem medo de não perceber o óbvio: aos que amam, o medo é um aviso sublime. É o alerta divino para cuidar do amor. É a consciência de que o ser amado pode partir, de que o amor periga fraquejar ninguém sabe quando. Então é melhor amá-lo agora e amanhã e depois e depois e depois. Só assim o medo esmorece. E se esconde no escuro solitário do porão.
Amor é sentimento irmão do medo. Quem tem um, tem o outro. Pode ser pouco, pode ser muito. Mas há sempre um medo repousando no coração dos amantes. Ou para que serviria a tal coragem de quem ama se não há medo nenhum a enfrentar?
Então, que o amor nos venha cheio de medos inevitáveis. Que venha! É melhor viver com amor e sentir medo que morrer de medo e viver sem amor.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Beethoven.sp.br


Por Augusto Rodrigues.


Quando entrei na fila, estiquei o pescoço para o lado e contei as pessoas à minha frente: doze. Seis senhoras, dois senhores, um carequinha de meia idade, um gordinho de uns trinta anos, um adolescente sonolento e uma moça baixa. Todos muito bem vestidos.
As seis senhoras conversavam sobre a acústica de casas de concerto na França e na Itália. Os dois senhores não se falavam. O carequinha lia a Veja. O gordinho lia o Estadão. O adolescente sonolento ouvia música nos fones de ouvido. A moça baixa olhava em volta e para as pessoas na fila, batendo o bico do sapato no chão. 
Era um belo dia: o sol iluminava o céu claro e já começava a esquentar. Embora o movimento na praça fosse ainda baixo, passava um ou outro a pé por ali a todo o momento. Alguns até cruzavam pela fila, em vez de contorná-la. Um deles era um ceguinho negro, muito pobre, que apalpava o chão com uma vareta, talvez ainda neófito nessa prática, pois tinha muita dificuldade de andar pela rua. De repente, trombou com uma das senhoras na fila, que ficou horrorizada.
–– Desculpem. Onde é o metrô? — perguntou o ceguinho.
–– É mais para lá. Aqui é a Sala São Paulo –– respondeu o carequinha, com tom de piedade.
Como estávamos todos virados para o outro lado, não tínhamos visto o ceguinho se aproximar. Depois que passou por nós, ele ia ainda rente às paredes da Sala, às vezes esbarrando em suas quinas. Mais lá à frente, vi que um homem que passou por ele, também negro, ofereceu ajuda para conduzi-lo até aonde queria ir.
Dois minutos em seguida, um mendigo, ainda criança, pediu ao carequinha um real para comprar um café com leite. Este lhe deu o dinheiro, e voltou a ler sua Veja. Um minuto depois, mais dois mendigos infantis, sujismundos e esfarrapados, vieram pedir dinheiro às senhoras e ao carequinha. Também para um café com leite. As senhoras negaram e se afastaram, com uma expressão de repulsa e medo. Com o cenho franzido, elas olharam para a unidade comunitária móvel da Polícia Militar estacionada logo ali em frente. O carequinha deu um real para cada uma das crianças, que lhe agradeceram muito. Após mais alguns instantes, o primeiro menino voltou.
–– Muito obrigado, senhor. Deus te abençoe — disse ele ao carequinha, mostrando o copo de café com leite na mão.
O carequinha sorriu e não disse nada. O menino foi embora. As senhoras o acompanharam com os olhos.
“Sei que este é um concerto concorrido, por isso cheguei uma hora antes de a bilheteria abrir” –– pensei eu comigo. “Além do mais, tenho estado esperando para assistir à Nona Sinfonia há mais de vinte anos. Aliás, os músicos bem que poderiam ter alguma outra entrada, para não ter de ficar cruzando a fila da bilheteria para entrar e sair da Sala. A maioria deles parece ser loira de olhos claros. Algumas moças têm uma expressão bem eslava, talvez russa.”
Junto com o crescente movimento de músicos entrando, a fila aumentava atrás de mim: agora eram mais dez que também esperavam ansiosos pela abertura da bilheteria, dali a meia hora. Quando olhei para a rua Mauá para verificar se meu carro ainda estava ali, vi uma mulher de meia idade, bastante obesa, surgindo de repente com um sorriso efusivo entre os mendigos e os músicos, e olhando para a fila. Foi recebida logo depois pela moça baixa, bem à minha frente. As duas sorriam, parecendo felizes com o encontro. 
Um senhor com os seus setenta anos, que estava atrás de mim, saltou à frente e abordou a recém-chegada.
–– Se vai comprar ingresso, vá para o fim da fila — disse ele, com firmeza.
A mulher obesa ignorou o senhor, que tinha um forte sotaque alemão, olhos claros atentos por trás dos óculos, e um corpo esguio ligeiramente arqueado. O homem voltou ao seu lugar. Após cinco minutos, tornou a abordar a mulher:
–– A fila está aumentando lá atrás. Você está perdendo tempo.
–– Eu já tinha avisado a ela que chegaria mais tarde. Eu venho de muito longe –– retrucou a mulher. O senhor não se impressionou, e disparou:
–– Ah, sim, então eu tenho dez amigos que morão muito longe que entraram aqui no fila quando chegarem também, passando no frente de todos esses outras pessoas que chegão aqui primeira!
Indignado, embora ainda contido, ele entrou na bilheteria e foi falar com alguém. Voltou e retomou seu lugar atrás de mim. Logo depois, saiu da fila novamente e abordou o carequinha, logo à frente das duas mulheres, procurando ganhar um partidário.
–– Volta para o seu lugar, cara, e fica na boa. Olha esse sol, esse céu azul. Não vou deixar você estragar meu dia — retrucou o carequinha.
O alemão tentou ainda reclamar com alguns dos homens mais atrás, que, assim como a mulher obesa, o ignoraram. Percebeu então que ninguém ali parecia se importar com o fato de aquela mulher ter “furado” a fila, nem mesmo os seguranças ou o pessoal da bilheteria.
         Faltavam dez minutos para a abertura das portas. Uma mulher, sujismunda e esfarrapada, veio em direção à fila e abordou uma das senhoras, enquanto esta papeava com suas companheiras sobre os concertos que assistira em Viena, por tantos anos a capital mundial da música erudita.
–– Senhora, dá uma moeda pra mim tomar um café? –– disse a pedinte.
A senhora negou e, com uma expressão de repulsa e medo, se encolheu. As outras senhoras olharam para o segurança ali na porta, que, para o horror de todas elas, gargalhava e gesticulava com um dos homens da limpeza, de costas para a fila. A moradora de rua se afastou, com a raiva, a vergonha e a miséria estampadas nos olhos. O alemão atrás de mim, agitado e inconformado, discutia com todos os outros na fila, esperando que compreendessem o que acontecia ali. Alguns também acreditavam que aquilo não era certo, mas não faziam menção de querer intervir. O homem esguio de olhos claros parecia estar sozinho em sua causa.    
Dez horas. A bilheteria abriu, e as pessoas começaram a entrar. Inquieto, o alemão tirou o celular do bolso e discou o número do Ingresso Rápido, que tinha pedido a alguém atrás dele.
–– Sim, estou aqui no fila do Sala São Paulo para comprar passagens para o Nona de Beethoven. Quero saber se pôde comprar lá com vocês. Sim, sim, pode ser. Plateia central é bom. Duas ingressos, por favor. Eu tenho Visa. Obrigado.
Desligou e foi embora. Quando ele saiu da fila, todo o pessoal mais à frente, que não tinha ouvido sua conversa como eu ouvi, estava curioso para saber o que havia acontecido com o “gringo encrenqueiro”. “Ele foi embora? Ele desistiu? Tem gente que gosta de criar problema mesmo, não é? Deve ter levantado com o pé esquerdo. Que sujeito mais desagradável. Ele queria era estragar o nosso dia. Sujeito infeliz” –– eram os comentários que se ouviam.
A fila andava depressa, já que havia três caixas atendendo lá dentro (segundo especulavam à minha frente). Atrás de mim, já haviam se juntado dezenas de outras pessoas. A fila era grande. O gringo tinha mesmo sumido, mas os olhares de muitos ainda o procuravam, nervosos.  
“No dia de sua première, sete de maio de 1824” — pensava eu comigo, enquanto olhava as pessoas entrando ––, “o Kärntnertortheater em Viena estava tão lotado quanto a Sala São Paulo estará daqui a dois meses, quase duzentos anos depois. Quase que posso ver o mestre envelhecido no palco, de costas para o público, sendo chamado pela jovem contralto Caroline Unger para que se virasse, pois a plateia aplaudia com ardor. Como ele não podia ouvir, tinha de ver todas aquelas palmas absolutamente jubilosas. As cinco ovações que o público lhe dera naquela noite era algo nunca antes visto para alguém que não pertencia à família real e nem mesmo era funcionário do Estado. Mas aquela noite não terminara ali. Depois da apresentação, o velho mestre, muito comovido com tamanha acolhida, foi acompanhado de volta à sua casa na Schwarzspanierstrasse por alguns amigos, que lhe mostraram, então, com mais do que um certo receio, os números da conta do concerto. Quando o mestre leu o que restara para ele após o pagamento do teatro, dos músicos e de todos os copistas, caiu duro, desmaiado. Os amigos ergueram-no e o deitaram no sofá, onde ele foi encontrado na manhã seguinte pelos criados, ainda nas roupas do concerto”...
Passei a porta de entrada, e agora me via muito próximo dos caixas, atrás somente da moça baixa e da mulher obesa, que conversavam sobre uma nova loja de sapatos que havia aberto no bairro onde moravam. Eu já ouvia no fundo da minha mente os primeiros compassos do Allegro Assai da grande sinfonia e pensava nos meus mais de vinte anos de espera por aquele momento. As duas mulheres, enquanto discutiam sobre os modelos dos sapatos da loja, ainda olhavam para trás em busca do gringo. De súbito, a mulher obesa voltou-se para mim e perguntou:
–– Você viu para onde ele foi? Será que ele foi embora?
Eu respondi que achava que ele de fato tinha ido embora. Não o vira mais.
         O carequinha passou diante de nós com seus ingressos e foi embora assobiando uma melodia popular. Neste momento, o caixa do lado direito se levantou e veio em nossa direção com uma expressão consternada.
–– Gente: sinto muito, mas os ingressos estão esgotados — disse ele olhando para mim e para os outros na fila.
Silêncio geral.
–– Como?! Não pode ser! São dez e quinze! –– berrou então a moça
baixa, indignada.
Eu mesmo senti um frio me atravessando a espinha dorsal. Como podiam os ingressos esgotar-se em apenas quinze minutos?
         O homem do caixa agora caminhava ao longo da fila, conversando com as pessoas.
–– A maior parte dos ingressos está sempre reservada aos assinantes, por isso restam muito poucos assentos livres, que logo são preenchidos — explicava ele. — As vendas por telefone e pela internet começaram também às dez horas, e o número de ligações foi muito grande. Há também outros pontos de venda de ingressos além deste aqui, que também receberam muita gente nestes quinze minutos. Sinto muito.
O homem era amável e percebia a frustração e a indignação no rosto de todos nós.
A frustração e a indignação da moça baixa e da mulher obesa pareciam as mais intensas de todas –– afinal de contas, foi na vez delas que os ingressos se acabaram. Se tivessem chegado à fila meia hora antes... Ainda não podiam crer no que acontecia ali, e vociferavam e bradavam de maneira quase bestial com os caixas da bilheteria.
–– Eu vim de muito longe para isso aqui! –– vociferava uma.
–– Você imagina o tempo que eu perdi e o custo que eu tive para chegar aqui a esta hora, num dia de semana? –– bradava a outra.
Não havia o que fazer. Ponto final.
Enquanto me encaminhava em direção ao carro, de cabeça baixa, pensei no sujeito alemão. Ele, diferentemente de mim, estaria lá dois meses depois para ouvir a grande música de Beethoven.